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Por: Dra. Cristiane Alves da Silva Ferraz e IA.

O que vocês já sabem é que a amamentação é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o padrão ouro de alimentação infantil e é recomendada de forma exclusiva até os seis meses de vida. No entanto, para além das evidências científicas e dos benefícios imunológicos, o aleitamento é um processo biológico e social que exige preparo, técnica e, acima de tudo, uma rede de apoio sólida.

Amamentar não deve ser um ato solitário ou doloroso. O sucesso do aleitamento depende de uma tríade: a técnica correta, a saúde física e mental da mãe e o suporte incondicional da família e da equipe de saúde.

Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial

Nosso objetivo como profissionais é informar com clareza e acolher com empatia, garantindo que cada família encontre o equilíbrio necessário para o desenvolvimento saudável de seu bebê.

Neste artigo, abordaremos os pilares para uma amamentação bem-sucedida, o manejo das dificuldades clínicas e a desmistificação do uso da fórmula infantil.

1. Onde tudo começa: Colostro e Apojadura (a famosa descida)

Após o processo do parto e a dequitação da placenta, é iniciada a produção do colostro, que se trata de um leite produzido nos primeiros dias pós-parto. Embora em pequeno volume, ele é nutricionalmente denso e calórico, e rico em imunoglobulinas (especialmente IgA), atuando como a primeira proteção imunológica do neonato e garantia de calorias importantes. Conhecido como Ouro Líquido, o colostro é a primeira vacina do bebê. Ele é riquíssimo em anticorpos e tem o volume exato para o estômago minúsculo do recém-nascido (que tem o tamanho de uma cereja!).

Entre o segundo e o quinto dia, ocorre a apojadura (a “descida do leite”). Este é um marco fisiológico onde há um aumento do fluxo sanguíneo e linfático nas mamas, preparando-as para a produção de leite maduro. As mamas podem ficar quentes, cheias e pesadas. É o corpo entendendo a demanda do bebê.

Fonte: https://doulabrasil.com.br/blog/apojadura-descida-do-leite-materno/

É comum que a mamãe sinta desconforto com o edema nas mamas, o que requer manejo adequado para evitar o ingurgitamento. Essa fase é muito importante, e nessa altura do campeonato o bebê já deve ter passado por sua primeira consulta avaliativa com o pediatra, que auxiliará na avaliação da pega e mamada do recém-nascido, bem como na saúde das mamas da mamãe.

Uma profissional que vale muito à pena conversar, são as consultoras de amamentação. Se você nunca ouviu falar sobre elas, vale buscar por uma consultoria.

Com as mamas ingurgitadas, se faz necessária a ordenha manual antes da oferta do peito para o bebê, uma vez que com as mamas muito cheias, a pega ficará muito difícil, fazendo com o que o bebê gaste mais energia e canse mais para mamar uma menor quantidade. Imagine que o bebê terá que conseguir fazer um bico em uma “bexiga” cheia – resultado – bebê cansado, com fome, irritado e mamãe com mamas machucadas e extremamente doloridas. Mas calma, tem jeito!

2. A Técnica: A Importância da Pega Correta

A maioria das complicações precoces na amamentação decorre de uma técnica de sucção ineficiente. Uma pega correta garante a transferência eficaz de leite e preserva a integridade do tecido mamário.

Amamentar não deve doer. Se dói, algo precisa ser ajustado. A “pega” é o encaixe da boca do bebê na mama:

  1. Boca de Peixinho: Os lábios devem estar voltados para fora.
  2. Queixo no Peito: O queixo encosta na mama, e o nariz fica livre para respirar.
  3. Abocanhando a Aréola: O bebê não deve sugar apenas o mamilo, mas sim a maior parte da parte escura do peito (aréola). Isso evita fissuras e garante que ele extraia o leite de forma eficiente.
  4. Bebê alinhado e virado para o corpo da mamãe: O bebê deverá estar voltado com a barriguinha encostada na mamãe, de maneira que cabeça e corpo estejam alinhados. Sem torções.
  5. Bebê apoiado: O bebê deverá ficar posicionado na altura do peito, o que é garantido com um travesseiro ou almofada de amamentação sustentando a criança.
  6. Livre Demanda: No início, não olhem para o relógio. O bebê deve mamar sempre que der sinais de fome (procurar o peito, levar a mão à boca).

Fonte: https://cuidarebr.com.br/dicas-de-amamentacao/

Entretanto, além de uma boa pega do bebê, é preciso olhar para o conforto com quem está amamentando. Se você é a rede de apoio dessa pessoa, garanta os seguintes cuidados:

Fonte: Imagem gerada por Inteligência artificial

  • Hidratação eficaz: Sim, dar de mamar dá muita sede!! Deixe garrafinhas de água fresca e limpa espalhadas e disponíveis pela casa.
  • Alimentação adequada: Inclua lanches curtos e leves na madrugada também, deixe o lanchinho pronto e próximo ao local de amamentação.
  • Descanso restaurador: Bebê dormindo, mamãe dormindo. Garanta que as tarefas do lar sejam feitas por outra pessoa, de maneira que a mamãe possa se dedicar 100% ao bebê, ou quase isso, se houver outras crianças na casa.
  • Posição de amamentação confortável: A mamãe deverá ficar em uma posição confortável, com a coluna, braços e pernas bem apoiados.
  • Temperatura confortável: A temperatura do ambiente deve esta ajustada. Garanta um ambiente com luz indireta e ventilação suave. Servir de alimento para alguém gera muito desgaste.
  • Tenha paciência: Dar de mamar não é algo natural, todas passam por um processo de aprendizagem e adaptação, torne esse momento prazeroso.
  • Silêncio aos Palpites: Se ouvirem “seu leite é fraco”, ignorem. Não existe leite fraco. Existe leite adequado para cada fase do seu filho.

Para ainda mais detalhes assista:

No vídeo a Enfermeira Obstetra Patrícia Marques Ribeiro, do Grupo Santa Joana, ensina as melhores práticas, falas das principais posições, como verificar se o bebê está pegando corretamente e ainda sobre situações especiais, como tipos de mamilos e mamas volumosas.

https://www.facebook.com/minsaude/videos/t%C3%A9cnica-do-c-auxilia-na-pega-correta-para-a-amamenta%C3%A7%C3%A3o/482336795569226/?locale=pt_BR

3. Desafios Clínicos Comuns e Manejo

Amamentar é um aprendizado mútuo entre mãe e bebê. Identificar dificuldades precocemente é essencial para evitar o desmame precoce.

Como pediatra, sou muito honesta: haverá momentos de cansaço extremo. Os desafios mais comuns são:

  • Fissuras Mamilares: Geralmente indicam erro na pega ou posicionamento. O tratamento envolve a correção da técnica e a aplicação do próprio leite materno ou lanolina purificada para cicatrização úmida.
  • Ingurgitamento Mamário: Quando a mama fica excessivamente tensa. O manejo inclui massagens circulares suaves e ordenha manual de alívio da aréola antes da mamada, facilitando a pega pelo bebê.
  • Ductos Bloqueados e Mastite: Processos inflamatórios que requerem atenção médica. A manutenção da drenagem da mama (através da própria mamada ou ordenha) é fundamental no tratamento.

Fonte: Imagem gerada por Inteligência artificial.

4. O Papel da Fórmula Infantil: Quando se Torna uma Aliada?

A amamentação exclusiva até os 6 meses e complementada até os 2 anos é o padrão ouro, mas a saúde do bebê e o bem-estar mental da mãe são as prioridades absolutas. A pediatria moderna deve ser humanizada e livre de julgamentos, e a fórmula deve ser vista e introduzida sob indicação médica, como um recurso científico e seguro nas seguintes situações:

Fonte: Imagem gerada por Inteligência artificial.

  • Inadequação de Ganho Ponderal: O bebê apresenta perda de peso superior ao esperado ou curva de crescimento estagnada, mesmo após intervenções de consultoria de amamentação.
  • Desidratação e Hipoglicemia: Sinais clínicos que colocam em risco a segurança do neonato.
  • Saúde Materna: Casos de exaustão física/mental materna severa, depressão pós-parto ou uso de medicações / doenças incompatíveis com a amamentação.

Bicos Artificiais e Fórmulas: A SBP é enfática: chupetas e mamadeiras devem ser evitadas. Elas podem causar a “confusão de bicos”, onde o bebê tenta usar a mesma técnica de sucção da mamadeira no peito, o que fere o mamilo e diminui a produção de leite.

No caso de necessidade clínica de fórmulas, estas devem ser prescritas pelo pediatra. As Fórmulas de Partida são modificadas para que a proporção de proteínas (soro/caseína) seja semelhante à do leite materno, evitando sobrecarga nos rins ainda imaturos do lactente. Ou seja, nada de diluir o leite de caixinha.

Lembre-se:

Bebê alimentado e mãe saudável é o que define o sucesso. O vínculo se constrói no colo, no olhar e no carinho, independentemente de onde vem o leite.

A amamentação é um processo biológico complexo. O leite materno é considerado um “alimento específico da espécie”, contendo não apenas macronutrientes, mas anticorpos (IgA secretora), prebióticos (HMOs) e hormônios que moldam o microbioma do bebê.

Vocês estão fazendo um trabalho maravilhoso!

Texto elaborado por:

Dra. Cristiane Alves da Silva Ferraz

Médica Pediatra. 

CRMSP:150129 / RQE:66637

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